“Não adianta ela ter esse rosto bonito, vou deixá-la irreconhecível”, conta irmã da vítima de feminícidio sobre ameaças do ex-companheiro durante protesto em Niquelândia
Daiana Virtuoso, de 35 anos, foi brutalmente assassinada por Eduardo Paulo da Silva, de 21 anos, no último dia 24 de março: criminoso se apresentou à PC no dia seguinte para responder ao processo em liberdade, mas está preso preventivamente desde o último dia 31 por decisão da Justiça

Na manhã deste sábado (5), familiares e amigos de Daiana Virtuoso, de 35 anos, fizeram uma caminhada pelas avenidas Getúlio Vargas e Brasil em protesto contra o feminicídio que essa mulher foi vítima no último dia 24 de março, com o intuito de sensibilizar a população de Niquelândia sobre essa morte brutal e outros casos de violência doméstica no município.
Eduardo Paulo da Silva, 21 anos, seu ex-companheiro, foi o autor do crime, praticado na residência de Daiana, no começo da Avenida da Saudade, na ligação entre o Centro e a Vila Mutirão.
Segundo a Polícia Civil, o corpo da mulher apresentava diversos ferimentos na cabeça e no rosto, demonstrando que o feminicídio foi praticado com extrema violência.
De acordo com delegado Cássio Arantes do Nascimento, Daiana já havia registrado um boletim de ocorrência contra Eduardo no início de 2024, o que resultou na abertura de um inquérito policial.

Eva Maria da Silva – de 46 anos, dona de casa, é cunhada da vítima, por ser casada com o irmão de Daiana. Eva relatou que, antes do relacionamento com Eduardo, a vítima do feminicídio era uma mulher muito alegre, extrovertida e que se dava bem com todo mundo.
Quando Daiana apresentou o namorado à família, segundo Eva, eles não perceberam de imediato a real personalidade do rapaz, pois Eduardo se mostrava muito calado e fechado, com pouco interesse de se entrosar com os parentes da então companheira.

“O relacionamento deles nunca teve altos e baixos. Sempre foi um relacionamento negativo, pois ele a oprimia, a agredia várias vezes e a manipulava”, detalhou a dona de casa Amélia Divina Virtuoso, de 25 anos, irmã de Daiana, ao Excelência Notícias
Ainda de acordo com Amélia, a mãe de ambas – Maria Betânia, que morreu vítima de um aneurisma 20 dias antes do crime – aconselhava Daiana a separar-se de Eduardo, temendo que, no futuro, o então companheiro poderia matá-la, mas a filha não a ouvia.
Sempre de acordo com a irmã, Daiana e Eduardo passaram a morar juntos, assim que se conheceram. Todavia, com o decorrer do relacionamento conturbado, Daiana quis terminar o namoro por várias vezes e pedia para Eduardo ir embora da casa dela, mas ele não a atendia.

Em muitas vezes, segundo o relato da irmã, Daiana chegava na casa de Amélia com marcas da violência no corpo causadas pelo companheiro.
Aconselhada por familiares, Daiana esteve na delegacia pedindo uma medida protetiva contra ele, para que Eduardo se mantivesse distante, mas não sabem a razão pela qual ela decidiu tirar essa restrição de que ele se aproximasse novamente.
A irmã disse, ainda, que Daiana tinha sido mordida no rosto por Eduardo em maio do ano passado, deixando-a com a marca causada por essa violência.

“Ela sofria inúmeras agressões dele. Inclusive, numa vez, ele correu atrás dela com a faca, tentando agredi-la”, explicou.
Uma semana antes do acontecido, a filha de Daiana contou para a tia que Eduardo havia dito que “não adiantava ela ter o rosto bonito, pois ele iria fazer questão de deixar o rosto de Daiana irreconhecível”, disse Amélia, sobre o relato da sobrinha.
Para Amélia, foi exatamente assim que o crime aconteceu porque Eduardo cumpriu essa promessa de deixar Daiana com o rosto desfigurado, obrigando assim que a família realizasse o velório com o caixão fechado.
“Ela terminava o namoro, mas ele não aceitava, a perseguia na cidade, no serviço, em festas, ele ia sempre atrás”, disse a irmã.

“No dia do crime, mais uma vez, a Daiana mandou ele ir embora da casa dela e ele não foi. O meu pai (padrasto de Daiana) foi na casa dela a procurar e o Eduardo falou que a Daiana havia saído para trabalhar, sendo que ela estava em casa, com o intuito de não deixar que ele a visse”, continuou.
Depois, como se tornou público no dia do crime, a filha de Daiane chegou da escola por volta das 18h30, quando encontrou a mãe sem vida.
MULHER ERA VIGIADA O TEMPO TODO – “Desde o princípio ele a proibia de ter contato até com a própria mãe e, nas redes sociais, só a autorizava a mexer se ele estivesse por perto. Ela só poderia trabalhar em locais onde ele pudesse trabalhar também, como por exemplo, quando trabalhavam juntos como seguranças em festas e eventos”, detalhou a irmã.

Amélia disse que Daiana se deixava manipular por Eduardo por uma suposta carência de afeto masculino, pois Daiana não teve a presença do pai no decorrer de sua vida, principalmente na infância.
Segundo a irmã de Daiana, existiam relatos de que Eduardo também agredia os familiares dele como a avó, o avô e tias.
“A avó não tinha confiança em estar na casa com ele sozinha”, disse Amélia.
Sobre alguns comentários que circularam na cidade de que assassino teria problemas mentais, Amélia não acredita nessa hipótese, pois acha que o crime foi premeditado pelo ex-companheiro da irmã.
Consultado na tarde deste sábado/5 pelo Excelência Notícias, o delegado Cássio Arantes disse que o fato de Eduardo ter dito que Daiana não estava na casa (ela estava no banho) ao ser procurada pelo padrasto evidenciou, de certa forma, a intenção do então companheiro em praticar o feminicídio.

Em relação a Eduardo, a família de Daiana espera que ele continue preso, pois “a Justiça brasileira é muito omissa”, no entendimento da irmã.
Dada a informação de que Eduardo apresentou-se à Polícia Civil no dia seguinte após o crime – fora do flagrante, diga-se de passagem – tendo sido inicialmente solto para responder ao processo em liberdade, Amélia entende que o Poder Judiciário só concedeu o mandado de prisão preventiva pedido pelo delegado Cássio Arantes do Nascimento pela grande repercussão que o feminicídio teve em Niquelândia.
“Para nós, da família, ele deveria ter ficado preso assim que se apresentou (ao delegado), mas ele acabou sendo solto (vale dizer que a autoridade policial cumpriu a legislação penal em vigor). O Eduardo só está preso nesse momento, porque a população ficou revoltada com o assassinato e queria invadir a casa dele para fazer Justiça com as próprias mãos; e a prisão dele seria uma ‘medida protetiva’ para o Eduardo não ser morto também”, disse a irmã.
A importância desse protesto, para os familiares de Daiana, é mostrar que as mulheres precisam de ajuda e apoio nesses momentos de fragilidade em que, infelizmente, não se dão conta do relacionamento possessivo e doentio que estão vivendo.

Segundo o delegado, não houve nenhum registro de feminicídio em Niquelândia no ano passado; e um único caso foi registrado em 2023 no município.
